Até esbarrar num bolo de mirtilos da Tara O’Brady, uma das muitas receitas do seu livro Seven Spoons, a minha vida decorria sem grandes percalços, que é como quem diz, nada me afligia de sobremaneira.
Só que aquela página nunca mais me abandonou até que, na terça-feira, decidi ir ao supermercado comprar os ingredientes que faltavam (tinha a maioria em casa o que também foi um bónus). 
Adiei até quinta.
Ontem, quando acordei disse mal da minha vida. O dia estava escuro, luminosidade zero, uma tragédia para quem, como eu, fotografa sempre dependente das condições climatéricas. Não desisti. Não fiz o bolo de manhã, esperei pelas abertas com que a tarde mais provavelmente me brindaria (ingénua).
Fui obrigada a acender a luz – que detesto e que me faz gostar um bocadinho menos destas fotografias – mas não dramatizei (mais).
Hoje de manhã, a rotina habitual: acordei, vesti a Camila – que já tinha tomado o leite – ela foi para escolinha e eu tomei o pequeno-almoço tranquilamente (e publiquei-o no Instagram).
Depois, sentei-me na cadeira branca que é uma réplica muito boa da Charles Eames, tirei o cartão da máquina fotográfica e introduzi-o no computador.
O cartão já tem uns anos e muito, muito uso, e de todas as vezes que faço este gesto penso que já devia ter um pé na Fnac para o substituir por outro. Mas não, a letargia, sempre a letargia. 
O ícone da fotografia não saltitava como habitualmente. Nem sinal do cartão.
Meia hora.
Uma hora.
Inspira, expira. Este bolo está contra mim.
O cartão dá sinal de vida e eu quase me comovi.
Começo a ver as imagens.
Um flagelo: demasiado escuras, a luz não resultou, a edição não melhora. Lixo. Faço a selecção possível e acho que esteticamente a composição ficou muito aquém do que é o meu padrão. 
Depois, penso no que é realmente importante: o sabor do bolo.
A massa é muito leve, os mirtilos nasceram para estar ali, a raspa de limão e a baunilha rejubilam o palato e não se pode pedir muito mais do que isto de um bolo.
Questiono-me se vale a pena a partilha. Respondo-vos com o que se segue.

INGREDIENTES
[receita adaptada do livro Seven Spoons, de Tara O’Brady]

250 g de farinha fina com fermento
2 colheres de sopa de sementes de papoila
1 pitada de flor de sal
175 g de manteiga magra sem sal, semi-derretida
185 g de açúcar amarelo
4 ovos, à temperatura ambiente
Sementes de uma vagem de baunilha (ou uma colher de chá de aroma de baunilha)
2 colheres de sopa de crème fraîche (ou iogurte grego natural sem açúcar)
Sumo e raspa fina de meio limão
150 g de mirtilos

PREPARAÇÃO

  1. Pré-aquecemos o forno a 150º C.
  2. Numa taça, misturamos a farinha, as sementes de papoila e a flor de sal. Reservamos.
  3. Numa taça de batedeira, batemos a manteiga com o açúcar por 7-8 minutos. Reduzimos a velocidade e adicionamos os ovos, um a um, sem parar de bater. Acrescentamos as sementes de baunilha. 
  4. Com a batedeira na velocidade baixa, acrescentamos metade da farinha, depois o crème fraîche, o sumo e a raspa do limão e, por fim, a restante farinha. Batemos só até incorporar. Juntamos os mirtilos à massa, guardando alguns para o final.
  5. Vertemos a massa para uma forma (usei uma quadrada de 20 cm) e colocamos os restantes mirtilos no topo, pressionando apenas ligeiramente. Polvilhamos toda a superfície com mais um pouco de açúcar amarelo.
  6. Levamos ao forno por 50 minutos (no livro diz 80 a 90 mins, mas achei realmente excessivo), até estar dourado e o palito sair limpo.

O bolo pode ser mantido à temperatura ambiente até 4 dias.


Tenham um doce e luminoso fim-de-semana,

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